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Qual grupo é mais propenso a negar o aquecimento global? Homens brancos, mais velhos e racistas

Quem nega as mudanças climáticas tende a ser racista, branco e mais velho, de acordo com um estudo da Pew Research. Os pesquisadores descobriram que os eleitores americanos com ressentimentos raciais sérios eram muito mais propensos a questionar uma verdade irrefutável como a mudança climática. Os entrevistados foram avaliados se concordavam com declarações como: "Se os negros se esforçassem, poderiam estar tão bem quanto os brancos".

Usando informações dos Estudos Eleitorais Nacionais Americanos, o pesquisador Salil Benegal, da Universidade DePauw, descobriu que republicanos com altos índices de ressentimento racial eram 84% propensos a discutir as mudanças climáticas provocadas pelo homem. Além disso, uma pesquisa realizada pela Pew descobriu que os negadores da mudança climática também tendem a ser mais velhos e brancos.

Os dados mostraram que os republicanos brancos com mais ressentimento racial eram muito propensos a discordar de uma afirmação de que a mudança climática era real, em oposição aos republicanos brancos menos racistas. Falando da pesquisa, Benegal diz: Não estou tentando afirmar no estudo que a raça é o componente mais importante em relação ao clima.

A triste e dura realidade é que a mudança climática é real e causa enormes danos ao nosso planeta."Quer você acredite ou não, a mudança climática está acontecendo, e o derretimento das calotas polares são um aviso horrível sobre isso. O uso de combustíveis fósseis e outros fatores está causando dano imenso e, às vezes, irreversível ao nosso planeta.

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Impacto do racismo de Monteiro Lobato - Sob uma visão histórica e pessoal

Muitos professores ou estudiosos da educação ainda questionam até onde Monteiro Lobato era racista. Claro que a maioria destes questionamentos vêm de pessoas que nunca sentiram na pele o impacto da sua obra no cotidiano do negro.

O escritor taubateano era um famoso defensor da eugenia, um tipo de seleção de humanos “bem nascidos” ou uma escolha de características superiores para a evolução da espécie. Exatamente o que defendia Hitler, vários países tiveram iniciativas como essa.


Quadro "Redenção de Can" (1895), mostrando avó negra, filha mulata, genro e neto brancos. Para o governo da época, a cada geração o brasileiro ficaria mais branco. Quadro de Modesto Brocos y Gomes.

Para ser mais exato, ele foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo e mantinha relações estreitas com vários dos principais nomes das políticas eugenistas brasileiras como Renato Kehl e Arthur Neiva.

Recentemente foram reveladas cartas em que ele fazia elogios à KKK (Ku Klux Klan), a seita supremacista que assassinava negros e incendiava cruzes nos Estados Unidos. “País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos.” Disse.

A frustração do Lobato era por conta do seu livro O presidente Negro, que não foi aceito nos EUA. Nele a elite branca concluiria um plano para esterilizar todos os negros e extinguir a raça em prol de uma Supercivilização ariana.

O que isso tem a ver com a literatura infantil? Tudo. Afinal o autor foi capaz de projetar seus preconceitos na construção das personagens. Sua visão sobre a pessoa negra ou mestiça não mudava magicamente para um mundo onde todos eram felizes, durante a escrita.

No livro "Caçadas de Pedrinho” (1933) Tia Nastácia é tratada por nomes como “macaca de carvão” , “carne preta”, “beiçuda” e várias outros insultos de cunho racial. Seus defensores dizem que não se podem julgá-lo com as réguas atuais.

Um dos trechos completos é esse: “esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida...”

Já em Reinações de Narizinho, Nastácia é chamada “negra de estimação”. São mais de 50 vezes que Lobato se refere a ela usando o termo a negra. Vários especialistas concordam que imaginário é parte inseparável de nossa existência e ajuda a construir nossa visão de mundo.

Por isso é esperado que crianças reproduzam de maneira natural as tratativas que o escritor tinha com sua personagem. Como eu sei? Porque estava lá em Taubaté durante a década de 90, estudando em escolas públicas que se alimentavam da obra de Monteiro Lobato o ano todo.

As ofensas raciais ganhavam um sentido doloroso para mim e a maioria dos alunos negros. Não havia variação de cor para o racismo impregnado, todos eram o “negro carvão” ou “cor de lodo” como Tia Nastácia já foi referida algumas vezes.

Coitado de nossos lábios, na verdade “beiços” como o racismo prefere enfatizar. E nossos narizes e orelhas. Tudo lembrava um macaco, quanto mais se propagava a obra, mais apelidos recebíamos.

Isso teve um impacto real na minha auto-estima, como deve ter sido para várias crianças negras. Por que reprovar um comportamento que vinha de um renomado autor? Todos riam, garotos e garotas brancas com respaldo dos professores.

Depois de alguns anos fui convencido que era um verdadeiro monstro. Meus pais nunca perceberam a origem de minha timidez. Nem eu, ninguém falava “você está sendo atacado porque é negro” Precisei de ajuda psicológica para lidar com tamanha inibição social.

Sinceramente, ela só foi desaparecer ali próximo aos 16 anos, quando morava em outra cidade e já estava no processo de reconhecimento e auto-afirmação racial. O avesso do que vinha dessa obra infame de Monteiro Lobato.

É por isso que EDUCAFRO e UNIPALMARES lutam para retirá-las das coleções oficiais do MEC. Mas enquanto a discussão entre educadores e escritores se desenrola, muitas crianças negras ainda são impactadas com o racismo de suas obras.

Lá no Sítio do Pica-Pau-Amarelo, em Taubaté, que agora é um museu e recebe centenas de turistas diariamente ainda é possível encontrar todo o tipo de estereótipo racista sobre a personagem. Por vezes interpretada com um blackface, pintando o rosto de forma exagerada, como um escárnio. Reforçando o batom vermelho para que a ofensa faça sentido.


Tirei essa foto durante a visita que fiz ao Museu do Sítio, em 2017

Muitos anos após minha infância na cidade, visitei o lugar. Imaginei que após tanta polêmica as coisas melhorariam. Até fui assistir o teatro infantil, que acontece 2 ou 3 vezes ao dia. Saí da sala em menos de 30 segundos, não consigo realmente presenciar ofensas raciais nem de brincadeira.

Mais rápido do que eu foram as crianças da platéia para reproduzi-las: “Macaca Beiçuda hahaha”. Não quero imaginar como se sentiram as meninas negras assistindo a peça. Apenas me questiono até quando historiadores vão relativizar essa história e ainda dizer como nós, negros, devemos nos sentir em relação a elas.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7

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Padre Cícero e o milagre que o racismo não conseguiu apagar

Padim Ciço é uma das figuras mais mitológicas que existe no Brasil e seu legado que ainda é vivo no Nordeste nem sempre é celebrado em outras regiões do país. Este post vai contar um capítulo emblemático que revela o racismo da igreja romana no Ceará.

A história começa em Joazeiro (como se escrevia na época), não era nem cidade, era um povoado em meio aquele sertão do Cariri, castigado e habitado por no máximo 60 casas de taipa cobertas de palha. Teria Jesus aparecido em sonho para ordenar que o pároco cuidasse do povo.

Lá começou o seu trabalho que nunca foi apenas ligado a religião, ele ajudou o povoado a crescer, atraindo cada vez mais as famílias. Posteriormente foi responsável pela emancipação do local que hoje é um dos 3 maiores centros de peregrinação do Brasil.

Certa vez, em 1889 durante o ritual católico da comunhão, a hóstia sangrou na boca de uma beata bastante conhecida por Padre Cícero Romão Batista. O fenômeno que seria milagre para o povo, se tornou uma perseguição para o Padim por conta da igreja.

Fosse uma vez apenas, essa história não teria chegado até nós. Mas o possível milagre se repetiu outras vezes. E, claro, chamou a atenção de todos. Quando o Bispo do Ceará se deu conta, gente de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte já se deslocavam para ver a beata.

Maria de Araújo não era ordenada uma freira, mas passou a ter uma vida de religiosidade após um seminário do próprio Padre Cícero e se tornou uma mulher de confiança, determinada em sua fé, simples como o povo daquela região. Não sabia como lidar com a atenção do povo.

Beata Maria de Araújo

Vários médicos da cidade investigaram o caso, incluindo o doutor Marcos Rodrigues Madeira que publicou no jornal “O Cearense” um atestado de sobrenaturalidade para o ocorrido. Muitas pessoas procuravam o sangue para tentar curar suas feridas.

Um processo foi instaurado dentro da igreja e Maria de Araújo foi interrogada por vários homens descrentes de que Deus se manifestaria por “uma mulher, preta”. Todos exigiam de Padim Ciço uma declaração desmentindo o milagre.

Vale ressaltar que esse caso aconteceu em praticamente um ano após a Lei Áurea, que teria oficializado para o governo a abolição da escravatura. O racismo impregnado na sociedade brasileira ainda se alastrava em todas as esferas sociais.

Após alguns meses Padre Cícero teve que lidar com o Arcebispado do estado que exigia que ele desmentisse o ocorrido. Maria recebeu ordens para deixar Juazeiro e a companhia de Cícero. Passou a viver na Casa de Caridade do Crato - povoado vizinho.

Deixada de lado, a beata foi desaparecendo dos registros históricos de Juazeiro e o Padre foi proibido de celebrar missas, às sanções sobre ele o desligaram completamente da Igreja Católica, mas o povo já o seguia como um santo vivo na Terra.

Como mulher e indefesa, Maria de Araújo se viu desamparada e empurrada para a marginalidade histórica. A simples menção do seu nome nas celebrações do povoado era considerado um crime eclesiástico. Foi punida por não “desmentir” o fenômeno que aconteceu dezenas de vezes.

Capa Cordel Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo - Autor: Severino José da Silva (Severino do Horto) - Ano: 1991 - Xilogravura da capa da reedição (Editora IMEPH, 2012): José Lourenço

Foi enviada a um convento em Fortaleza, para ficar incomunicável, mas logo os fiéis descobriram e a procuraram. Novamente foi levada para longe, no sertão, onde adoeceu enclausurada. Alguns acreditam que foi envenenada.

Padre Cícero ainda teve muita história, se tornou prefeito da cidade e foi eleito Deputado Federal (mas não assumiu), em 2006 o Vaticano anunciou o perdão e a reconciliação do Santo popular que arrasta até hoje milhões de fiéis para o sertão.

Romaria do Padre Cícero em Juazeiro do Norte - CE.

Infelizmente a Beata Maria de Araújo não dispõe da mesma sorte, a igreja não se manifestou sobre a sua reconciliação. Após ser sepultada em 1914, teve seu túmulo violado por ordens de Bispo de Crato, tudo foi destruído e seus ossos desapareceram para evitar peregrinações.

O povo nunca esqueceu de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo e até hoje surgem histórias de pessoas encontrando seu possível local de enterro, talvez seja esse o maior milagre no meio de uma época marcada pelo racismo religioso.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5 e 6