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Qual grupo é mais propenso a negar o aquecimento global? Homens brancos, mais velhos e racistas

Quem nega as mudanças climáticas tende a ser racista, branco e mais velho, de acordo com um estudo da Pew Research. Os pesquisadores descobriram que os eleitores americanos com ressentimentos raciais sérios eram muito mais propensos a questionar uma verdade irrefutável como a mudança climática. Os entrevistados foram avaliados se concordavam com declarações como: "Se os negros se esforçassem, poderiam estar tão bem quanto os brancos".

Usando informações dos Estudos Eleitorais Nacionais Americanos, o pesquisador Salil Benegal, da Universidade DePauw, descobriu que republicanos com altos índices de ressentimento racial eram 84% propensos a discutir as mudanças climáticas provocadas pelo homem. Além disso, uma pesquisa realizada pela Pew descobriu que os negadores da mudança climática também tendem a ser mais velhos e brancos.

Os dados mostraram que os republicanos brancos com mais ressentimento racial eram muito propensos a discordar de uma afirmação de que a mudança climática era real, em oposição aos republicanos brancos menos racistas. Falando da pesquisa, Benegal diz: Não estou tentando afirmar no estudo que a raça é o componente mais importante em relação ao clima.

A triste e dura realidade é que a mudança climática é real e causa enormes danos ao nosso planeta."Quer você acredite ou não, a mudança climática está acontecendo, e o derretimento das calotas polares são um aviso horrível sobre isso. O uso de combustíveis fósseis e outros fatores está causando dano imenso e, às vezes, irreversível ao nosso planeta.

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Impacto do racismo de Monteiro Lobato - Sob uma visão histórica e pessoal

Muitos professores ou estudiosos da educação ainda questionam até onde Monteiro Lobato era racista. Claro que a maioria destes questionamentos vêm de pessoas que nunca sentiram na pele o impacto da sua obra no cotidiano do negro.

O escritor taubateano era um famoso defensor da eugenia, um tipo de seleção de humanos “bem nascidos” ou uma escolha de características superiores para a evolução da espécie. Exatamente o que defendia Hitler, vários países tiveram iniciativas como essa.


Quadro "Redenção de Can" (1895), mostrando avó negra, filha mulata, genro e neto brancos. Para o governo da época, a cada geração o brasileiro ficaria mais branco. Quadro de Modesto Brocos y Gomes.

Para ser mais exato, ele foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo e mantinha relações estreitas com vários dos principais nomes das políticas eugenistas brasileiras como Renato Kehl e Arthur Neiva.

Recentemente foram reveladas cartas em que ele fazia elogios à KKK (Ku Klux Klan), a seita supremacista que assassinava negros e incendiava cruzes nos Estados Unidos. “País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos.” Disse.

A frustração do Lobato era por conta do seu livro O presidente Negro, que não foi aceito nos EUA. Nele a elite branca concluiria um plano para esterilizar todos os negros e extinguir a raça em prol de uma Supercivilização ariana.

O que isso tem a ver com a literatura infantil? Tudo. Afinal o autor foi capaz de projetar seus preconceitos na construção das personagens. Sua visão sobre a pessoa negra ou mestiça não mudava magicamente para um mundo onde todos eram felizes, durante a escrita.

No livro "Caçadas de Pedrinho” (1933) Tia Nastácia é tratada por nomes como “macaca de carvão” , “carne preta”, “beiçuda” e várias outros insultos de cunho racial. Seus defensores dizem que não se podem julgá-lo com as réguas atuais.

Um dos trechos completos é esse: “esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida...”

Já em Reinações de Narizinho, Nastácia é chamada “negra de estimação”. São mais de 50 vezes que Lobato se refere a ela usando o termo a negra. Vários especialistas concordam que imaginário é parte inseparável de nossa existência e ajuda a construir nossa visão de mundo.

Por isso é esperado que crianças reproduzam de maneira natural as tratativas que o escritor tinha com sua personagem. Como eu sei? Porque estava lá em Taubaté durante a década de 90, estudando em escolas públicas que se alimentavam da obra de Monteiro Lobato o ano todo.

As ofensas raciais ganhavam um sentido doloroso para mim e a maioria dos alunos negros. Não havia variação de cor para o racismo impregnado, todos eram o “negro carvão” ou “cor de lodo” como Tia Nastácia já foi referida algumas vezes.

Coitado de nossos lábios, na verdade “beiços” como o racismo prefere enfatizar. E nossos narizes e orelhas. Tudo lembrava um macaco, quanto mais se propagava a obra, mais apelidos recebíamos.

Isso teve um impacto real na minha auto-estima, como deve ter sido para várias crianças negras. Por que reprovar um comportamento que vinha de um renomado autor? Todos riam, garotos e garotas brancas com respaldo dos professores.

Depois de alguns anos fui convencido que era um verdadeiro monstro. Meus pais nunca perceberam a origem de minha timidez. Nem eu, ninguém falava “você está sendo atacado porque é negro” Precisei de ajuda psicológica para lidar com tamanha inibição social.

Sinceramente, ela só foi desaparecer ali próximo aos 16 anos, quando morava em outra cidade e já estava no processo de reconhecimento e auto-afirmação racial. O avesso do que vinha dessa obra infame de Monteiro Lobato.

É por isso que EDUCAFRO e UNIPALMARES lutam para retirá-las das coleções oficiais do MEC. Mas enquanto a discussão entre educadores e escritores se desenrola, muitas crianças negras ainda são impactadas com o racismo de suas obras.

Lá no Sítio do Pica-Pau-Amarelo, em Taubaté, que agora é um museu e recebe centenas de turistas diariamente ainda é possível encontrar todo o tipo de estereótipo racista sobre a personagem. Por vezes interpretada com um blackface, pintando o rosto de forma exagerada, como um escárnio. Reforçando o batom vermelho para que a ofensa faça sentido.


Tirei essa foto durante a visita que fiz ao Museu do Sítio, em 2017

Muitos anos após minha infância na cidade, visitei o lugar. Imaginei que após tanta polêmica as coisas melhorariam. Até fui assistir o teatro infantil, que acontece 2 ou 3 vezes ao dia. Saí da sala em menos de 30 segundos, não consigo realmente presenciar ofensas raciais nem de brincadeira.

Mais rápido do que eu foram as crianças da platéia para reproduzi-las: “Macaca Beiçuda hahaha”. Não quero imaginar como se sentiram as meninas negras assistindo a peça. Apenas me questiono até quando historiadores vão relativizar essa história e ainda dizer como nós, negros, devemos nos sentir em relação a elas.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7

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Como grupos supremacistas mantém os ideais que levaram ao Apartheid na África do Sul

Muitos já leram sobre atrocidades cometidas por supremacistas brancos na África do Sul. Através do Apartheid condenaram a população negra à violência e pobreza, mas muita gente desconhece o fato que um desses grupos ainda resiste no país e tem planos para evacuação em massa.

A história desse grupo, chamado Suidlanders, começa com o seu Profeta Niklaas Van Rensburg, um boer que é equivalente a um descendente de colono holandês e agricultor. Aos 16 anos ele lutou contra o chefe do povo Nbele, Mabhogo. Aos 21 virou um profeta cheio de alucinações.

Profeta Niklaas Van Rensburg

Aliás, foi eleito profeta da NHK, a Igreja Reformada Holandesa na África do Sul. A mesma igreja evangélica calvinista que pressionou o governo a instituir as leis de segregação que foram oficializadas em 1948 - chegaram a ter seguidores somando 40% da população branca do país.

Rensburg foi requisitado para lutar na segunda Guerra Anglo-Boer, essas guerras uma disputa que acontecia entre o Império Britânico e os estados dos bôeres que eram apoiados principalmente por imigrantes da Alemanha e Suécia-Noruega.

Mas, adivinhem, o profeta recebeu uma visão que seu trabalho seria devotado a Deus. Ele passou a escrever profecias sobre a guerra, em um número absurdo jogando contra a probabilidade. Algumas foram acertadas, esse fato contribuiu para aumentar sua reputação.

Quando veio a primeira guerra mundial, Van Rensburg ficou do lado dos rebeldes aliados da Alemanha, a maioria foi preso, assim como o profeta supremacista. Após vários anos na prisão suas visões começaram a ser registradas pelo reverendo Dr. Rossouw e sua filha Anna Badenhorst.

Ao todo foram 700 registros de profecias que inspiraram governos e partidos. Van Rensburg foi conselheiro do presidente Martinus Theunis Steyn, o último presidente do Estado Livre de Orange. Grande parte misturava misticismo, nacionalismo e o tradicional racismo dos colonizadores.

Martinus Theunis Steyn

Os supremacistas boer sempre foram um grupo expressivo no país e seus fundamentos levam o grupo a cometer atos violentos e ao mesmo tempo ridículos, como aconteceu no dia 13 de setembro de 2002.

Vários indivíduos viajaram até Alexandra, Joanesburgo, com a intenção de derrubar o governo pós-Apartheid, matar e expulsar todas as pessoas negras do continente. Eles lotaram carros de gasolina e bombas de cilindros que somaram 1.500 Quilos de explosivos.

O julgamento durou 10 anos e culminou na sentença máxima para os 20 integrantes da milícia. Eles chegaram a espalhar bombas em estradas que Nelson Mandela iria passar, mas que por ventura precisou mudar a rota. Eles assumiram alguns ataques por email ao jornal "Beeld".

Os guerreiros da nação boer, também haviam plantado as bombas que mataram uma mulher e feriram o marido em Outubro de 2001."Declaramos que esses ataques são o começo do fim para o governo do Congresso Nacional Africano (ANC) e aceitamos total responsabilidade por isso".

Após 2006 militantes dessa nação boer fundaram os Suidlanders e começaram uma turnê mundial para espalhar suas ideias e consolidar acordos diplomáticos, preparando as rotas de fuga de uma iminente guerra racial - enviaram uma proposta para o ministro do governo australiano.

O jornalista David Farrier acompanhou a rotina de um grupo Suidlander na primeira temporada do seriado Turismo Macabro e pôde presenciar que eles fazem exercícios de evacuação e se preparam para uma guerra mundial que poderia levar ao “genocídio branco”.

Esse genocídio aconteceria segundo uma das visões do Van Rensburg, onde os negros iria causar um tipo de apocalipse se revoltando contra todos e destruindo o país com terrorismo e fúria. Toda a família vive em um regime sobrevivencialista. Esperando pela guerra a qualquer segundo.

A campanha mundial que os supremacistas começaram foi capaz de influenciar jornalistas americanos com a falácia do possível genocídio branco que está acontecendo.

A existência de grupos como esse nos tempos de hoje parecem verdadeiros absurdos, mas eles ainda estão por aí, utilizando desculpas como a defesa das tradições e dos bons costumes para promoverem o ódio. Infelizmente os Suidlanders não são os únicos supremacistas vivos no mundo.

Fontes: 1, 2, 3, 4 e 5

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Você não escolhe ser racista, mas pode evitar ser um supremacista

Esse assunto vai parecer bastante indigesto, mas se você é um homem ou mulher branca, provavelmente você é racista, mesmo que não queira. Você não tem escolha, a sociedade brasileira é assim e você faz parte dela. Mas pode escolher não se tornar algo pior, um supremacista racial.

A socialista Robin DiAngelo passou 20 anos estudando o que ela chama de “fragilidade branca” nos EUA, essa mulher ajudou o Starbucks após o incidente racista com dois homens na cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos e vem ajudando outras empresas a entender suas dificuldades.

Para DiAngelo brancos são extremamente previsíveis, seus padrões incluem que "foram ensinados a tratar todos da mesma forma", que não enxergam cores", que "não se importam se você é rosa ou etc…” e em alguns casos vão evocar um familiar negro para justificar que não é racista.

A sociedade segregada se preparou para isolar o branco da discussão racial. Um branco não precisa definir sua raça e sua cor, ele se interpreta como o cidadão padrão. Se olharmos para a história da abolição brasileira podemos entender como isso impactou nossa sociedade.

Quando a Lei Áurea foi assinada a maior parte dos negros já havia se libertado através de revoltas e lutas abolicionistas, isso em 1888, agora quem dera se o racismo tivesse sido apagado através de uma caneta e do papel. Ele continuou por um bom tempo.

A capoeira, era proibida até 1912, época que os ideais de eugenia começaram a florescer na sociedade. A eugenia falava de pureza racial, entidades governamentais e universidades queriam clarear a raça brasileira. Em 1920 ainda havia leis que impediam imigração de negros no país.

Durante a ditadura o governo promoveu o discurso da Democracia Racial, uma teoria baseada na obra de Gilberto Freyre, com o argumento que a mestiçagem resolveu os problemas raciais do Brasil. Foi contestada depois por nomes como Florestan Fernandes e Virgínia Bicudo.

Todos esses eventos nos trouxeram aqui. Onde muitos brancos descendem de homens que defenderam ideais eugenistas, racistas e promoveram uma crueldade brutal contra pretos e índios. É infantil acreditar que, ao menos seu avô, não foi criado próximo de um racista.

Esses ideais não foram diluídos no imaginário coletivo dos brancos. A pesquisadora brasileira Lia Vainer Schucman, doutora pelo Instituto de Psicologia, afirma que brancos, muitas vezes, são racistas sem saber que o são.

Brancos reproduzem o racismo de forma inconsciente, quando projetam na sua mente uma imagem pejorativa do negro e de suas características. Se pensar na figura de um médico, por exemplo, a primeira imagem que vem a cabeça é um homem branco. Nunca de um negro.

Para o Prof°. Dr. Kabengele Munanga "nós temos uma grande dificuldade, na sociedade brasileira, para entender e decodificar as manifestações do nosso racismo, pq tem peculiaridades que diferenciam das outras manifestações do racismos (nos países estrangeiros).

A fragilidade branca aqui criou uma ideologia, a democracia racial funciona como uma crença, uma ordem, uma verdadeira realidade. Assim fica difícil arrancar do brasileiro comum a confissão de que ele também é racista.

Estudos da ONU mostram que a cor da pele é componente central na estruturação das desigualdades no Brasil, afetando o acesso ao emprego e a maiores níveis de desenvolvimento. No país, negros vivem, estudam e ganham menos do que brancos.

Isso porque na hora de contratar alguém, sua mente prefere outro branco. Quando entra em uma empresa de um negro sua mente diz que não é confiável. Todo o sistema racista dos séculos passados deixou estereótipos cravados na população.

Colocando negros em uma situação em que, mesmo diante do esforço de elevar seu status educacional e profissional, pretos encontram restrições no meio dos brancos. Que ainda insistem em não aceitar seu racismo.

Os brancos de hoje não criaram o racismo, mas propagam ele. De forma impensável ou inconsciente são responsáveis pela manutenção do status racial. Se você nunca pensou sobre isso, então ainda propaga o racismo. Quem já pensou tem sempre duas escolhas…

… ser responsável e ajudar a sociedade a exterminar esse problema ou se apropriar do racismo como sua ideologia e se tornar um verdadeiro supremacista. Supremacistas espalham discursos de ódio pela internet e fora também.

Grande parte dos haters são supremacistas, ofendendo características negróides e instigando grupos a perseguirem jovens. Qualquer pessoa pode ser um supremacista, muitas vezes são quem deveria nos proteger mas preferem aumentar as estatísticas do genocídio negro.

Atualmente grupos supremacistas tem crescido, inclusive no Brasil. A polícia tem investigado cartazes da KKK em São Paulo e Blumenau. Esse tipo de coisa acontece porque negros passam a ter mais representatividade. Não é uma questão nova.

Sempre que um grupo de negros consegue evoluir na sociedade, os supremacistas aparecem. “Eu acredito que haverá um choque entre aqueles que querem liberdade, justiça e igualdade para todos e aqueles que querem continuar os sistemas de exploração. ” - Malcolm X

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7

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Padre Cícero e o milagre que o racismo não conseguiu apagar

Padim Ciço é uma das figuras mais mitológicas que existe no Brasil e seu legado que ainda é vivo no Nordeste nem sempre é celebrado em outras regiões do país. Este post vai contar um capítulo emblemático que revela o racismo da igreja romana no Ceará.

A história começa em Joazeiro (como se escrevia na época), não era nem cidade, era um povoado em meio aquele sertão do Cariri, castigado e habitado por no máximo 60 casas de taipa cobertas de palha. Teria Jesus aparecido em sonho para ordenar que o pároco cuidasse do povo.

Lá começou o seu trabalho que nunca foi apenas ligado a religião, ele ajudou o povoado a crescer, atraindo cada vez mais as famílias. Posteriormente foi responsável pela emancipação do local que hoje é um dos 3 maiores centros de peregrinação do Brasil.

Certa vez, em 1889 durante o ritual católico da comunhão, a hóstia sangrou na boca de uma beata bastante conhecida por Padre Cícero Romão Batista. O fenômeno que seria milagre para o povo, se tornou uma perseguição para o Padim por conta da igreja.

Fosse uma vez apenas, essa história não teria chegado até nós. Mas o possível milagre se repetiu outras vezes. E, claro, chamou a atenção de todos. Quando o Bispo do Ceará se deu conta, gente de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte já se deslocavam para ver a beata.

Maria de Araújo não era ordenada uma freira, mas passou a ter uma vida de religiosidade após um seminário do próprio Padre Cícero e se tornou uma mulher de confiança, determinada em sua fé, simples como o povo daquela região. Não sabia como lidar com a atenção do povo.

Beata Maria de Araújo

Vários médicos da cidade investigaram o caso, incluindo o doutor Marcos Rodrigues Madeira que publicou no jornal “O Cearense” um atestado de sobrenaturalidade para o ocorrido. Muitas pessoas procuravam o sangue para tentar curar suas feridas.

Um processo foi instaurado dentro da igreja e Maria de Araújo foi interrogada por vários homens descrentes de que Deus se manifestaria por “uma mulher, preta”. Todos exigiam de Padim Ciço uma declaração desmentindo o milagre.

Vale ressaltar que esse caso aconteceu em praticamente um ano após a Lei Áurea, que teria oficializado para o governo a abolição da escravatura. O racismo impregnado na sociedade brasileira ainda se alastrava em todas as esferas sociais.

Após alguns meses Padre Cícero teve que lidar com o Arcebispado do estado que exigia que ele desmentisse o ocorrido. Maria recebeu ordens para deixar Juazeiro e a companhia de Cícero. Passou a viver na Casa de Caridade do Crato - povoado vizinho.

Deixada de lado, a beata foi desaparecendo dos registros históricos de Juazeiro e o Padre foi proibido de celebrar missas, às sanções sobre ele o desligaram completamente da Igreja Católica, mas o povo já o seguia como um santo vivo na Terra.

Como mulher e indefesa, Maria de Araújo se viu desamparada e empurrada para a marginalidade histórica. A simples menção do seu nome nas celebrações do povoado era considerado um crime eclesiástico. Foi punida por não “desmentir” o fenômeno que aconteceu dezenas de vezes.

Capa Cordel Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo - Autor: Severino José da Silva (Severino do Horto) - Ano: 1991 - Xilogravura da capa da reedição (Editora IMEPH, 2012): José Lourenço

Foi enviada a um convento em Fortaleza, para ficar incomunicável, mas logo os fiéis descobriram e a procuraram. Novamente foi levada para longe, no sertão, onde adoeceu enclausurada. Alguns acreditam que foi envenenada.

Padre Cícero ainda teve muita história, se tornou prefeito da cidade e foi eleito Deputado Federal (mas não assumiu), em 2006 o Vaticano anunciou o perdão e a reconciliação do Santo popular que arrasta até hoje milhões de fiéis para o sertão.

Romaria do Padre Cícero em Juazeiro do Norte - CE.

Infelizmente a Beata Maria de Araújo não dispõe da mesma sorte, a igreja não se manifestou sobre a sua reconciliação. Após ser sepultada em 1914, teve seu túmulo violado por ordens de Bispo de Crato, tudo foi destruído e seus ossos desapareceram para evitar peregrinações.

O povo nunca esqueceu de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo e até hoje surgem histórias de pessoas encontrando seu possível local de enterro, talvez seja esse o maior milagre no meio de uma época marcada pelo racismo religioso.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5 e 6

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A origem do Linchamento e o terrorismo racial

Quando os aqueles que deveriam promover a lei falham, o povo tenta fazer justiça com as próprias mãos. O resultado disso é catastrófico, principalmente para a parcela mais excluída da sociedade. Esse texto vai revelar o genocídio promovido por um americano, Charles Lynch.

Lynch nasceu na na Virgínia em 1736, e havia se convertido à comunidade Quaker, uma variação dos protestantes que defendiam um certo pacifismo, solidariedade e da filantropia entre membros. Os Quakers se chamavam de "Filhos da Luz, Amigos da Verdade e até de Santos.

Charles ganhou influência para se tornar um líder da comunidade e também um dos maiores escravagistas da região. Com a Revolução Americana, Lynch os Quakers e se tornou e Juíz de paz do condado de Bedford. Depois levantou seu próprio regimento miliciano.

Naquela época nem todos americanos eram patriotas, parte deles lutavam pelos colonizadores e ainda haviam muitos nativos como mohawks ou os cherokees. Então havia um medo do crescimento de uma rebelião tentar devolver o poder das 13 colônias aos britânicos.

O que Lynch fazia era patrulhar o condado, em busca de suspeitos, desertores e possíveis conspiradores. Que deveriam ser enviados ao governador Thomas Jefferson para julgamento, porém seus destinos acabavam nas mãos violentas e do crivo inescrupuloso de Lynch.

Os piores criminosos foram amarrados a árvores e açoitados até a morte, ou até desmaiarem de dor para depois morrerem pendurados. Isso ficou conhecido como Lei de Lynch, ou justiça com as próprias mãos. Nessa época não tinha contexto racial contra negros.

Mas as coisas mudaram drasticamente depois de 1800 quando os estados do sul americano instauraram uma onda de terror racial. Louisiana, Geórgia, Alabama, Flórida e Mississippi ajudaram no linchamento de 4.000 negros entre 1877 a 1950.

Linchamento em Excelsior Springs, Missouri, em 1925. Crédito: Bettmann/Corbis

As leis de segregação americana facilitaram as coisas e a maioria dos negros era linchado por coisas simples como responder de volta uma ofensa aos brancos ou insistir em lutar por justiça e direitos civis básicos.

O linchamento se tornou um artifício de controle social, sempre que a sociedade branca se preocupava com a evolução dos negros na sociedade ou mesmo com alguns brancos que acreditavam na integração, o número de linchamento crescia.

No último século a sociedade aceitou o linchamento de negros, com anúncios no jornal. "Três mil pessoas vão queimar um negro", dizia uma notícia do New Orleans State, de 1919. Centenas de negros foram assassinados simplesmente por “vadiagem”.

Esses atos não eram feitos por grupos menores e extremistas, eram feitos por toda a sociedade como uma mensagem que impunha um limite para a ascenção social. Afirma o professor de Sociologia da Universidade de Washington.

O Brasil também utilizou o linchamento de forma parecida, mais de 1,5 milhão de brasileiros participaram de linchamentos no país nos último 73 anos segundo o livro Linchamentos – A Justiça popular no Brasil escrito por José de Souza Martins.

Assim como nos EUA a maior parte dos casos é contra negros. a Historiadora Memphis Margaret Vandiver traça uma linha tênue entre a Pena de morte e o linchamento da população negra. https://www.amazon.com/Lethal-Punishment-Lynchings-Legal-Executions/dp/0813537290

Por aqui o racismo infectou tantas mentes que nos acostumamos a ver negros morrendo na TV, nos presídios e nas ruas sem que isso pareça errado. Só que o genocídio continua e por isso a ONU lançou ano passado uma campanha pelo fim da violência contra nossa juventude. https://nacoesunidas.org/onu-brasil-lanca-campanha-pelo-fim-violencia-contra-juventude-negra/

Fontes 1, 2, 3 e 4

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Qual a diferença entre a escravidão africana e o racismo europeu?

Numa época em que as redes sociais se tornam campos polarizados de discussões, a polêmica em torno do racismo e da escravidão vem a tona. Quase sempre confrontada com a falácia de que “os próprios negros se escravizavam”. Acompanha o texto para descobrir até onde vai a verdade.

Ilustração: O tocador de berimbau - J.B.Debret (1826)

A escravidão existe desde épocas pré-históricas. Ela sempre foi um reflexo da guerra entre povos diferentes. Exatamente como aconteceu, por exemplo, entre os Vikings, que criaram a palavra Thrall para a condição que poderia ser hereditária, captura e até mesmo voluntária.

Os Astecas chamavam de tlatlacotin. Dentro da sua sociedade, indivíduos com dívidas de jogos ou condenados por crimes podiam assumir a condição de serviçais particulares até pagarem suas dívidas. Ou até alcançarem a confiança do suserano (em caso de inimigos de guerra).

Para outras sociedades essa crueldade tinha um tipo de prazo. A bíblia judaica-cristã narra o ano do Jubileu, onde toda condição de escravo devia ser dissipada. Jubileu vem do verbo hebraico yovel "trazer de volta", pois os escravos voltavam a seu estado anterior de liberdade.

Dá para entender que a europa não inventou a escravidão. Ela inventou algo que tornou toda a história da escravidão mais nefasta que já era. Vamos falar sobre isso, mas é importante olhar para dentro da África e responder a grande questão, que gera banalidade nas discussões.

As pessoas tendem a diminuir a África, imaginando como um estereótipo de país, quando é um vasto continente dos mais ricos em culturas, tradições e etnias que viviam em conflitos assim como os ameríndios ou qualquer povo nativo de qualquer continente.

Escravos eram produtos dessas guerras. Muitas pessoas foram aprisionadas para a construção do império Akan, um dos maiores impérios africanos. Eles levantaram construções inimagináveis no meio da floresta e passaram décadas na expansão do mesmo.

Wilhelmina Donkell, especialista na história dos Akan, ressalta que o sistema de servidão Ashanti era diferente da escravidão europeia “podiam se casar, ter filhos, acumular propriedade e...às vezes eles se casavam com as linhagens de seus devo dizer, seus mestres”.

Seria ridículo argumentar que existia um tipo “legal” de escravidão. Ela é abominável de todas as formas, mas o mundo antigo era cruel em todos os lugares. Só que os europeus transformaram crueldade em desolação, adicionando um elemento nunca explorado: a ideia de raça.

Sandra Greene, historiadora especializada na história de Gana afirma “não tinham escravidão racial”. Em nenhum momento a humanidade decidiu que a escravidão deveria ser por conta da cor ou de uma etnia diferente. Portugueses e seus aliados criaram a escravidão racial.

O conceito de raça surgiu com a Inquisição por volta de 1449, quando um estatuto de pureza de sangue segregava judeus e mouros. Os teólogos passaram a procurar justificativas bíblicas para pessoas diferentes. Isso se intensificou quando chegaram à África.

Os europeus desembarcaram e promoveram alianças com alguns reis, assim como fizeram com os ameríndios. Vale lembrar da história de Montezuma que recebeu Hernán Cortés e depois foi traído e morto pelos espanhóis.

Da mesma forma mercadores europeus se aproveitaram dos conflitos entre os povos africanos para estimular guerras, criando prisioneiros que compravam como mercadorias. Apesar de já ser um costume entre alguns povos africanos, europeus elevaram a potências terríveis.

A historiadora Érica Turci afirma que ‘Os pesquisadores apresentam números diferentes, que vão de 8 milhões até 100 milhões de pessoas” escravizadas pela europa. A África é um continente muito maior que a América Latina e foi sangrado por séculos sem nenhum pudor.

Isso se deve ao fato da colonização européia criar um inédito mercado global de escravos. Vendendo os negros para outros países que estavam passando por colonizações. Os Árabes promoveram um mercado de escravidão, mas não chegaram a colonizaram um continente inteiro.

Enquanto a servidão africana, alguns escravos se tornaram confidentes de altos funcionários e eram eram considerados as pessoas ideais para estar perto dos homens no poder. A escravidão europeia dizia que negros não tinham alma e deveriam ser punidos em vida.

Não bastasse a perversão promovida pelos mercadores, endossados pela religião européia, à partir de 1800 a ciência promoveu teorias sobre as diferenças da anatomia de negros e brancos para garantir a despersonificação de homens e mulheres. Luther King fala sobre isso https://www.youtube.com/watch?v=1NukewONo1w

Por fim a escravidão racial se consolidou em leis que garantiam os privilégios de pessoas brancas em todo o mundo. Tanto na África com o Apartheid, quanto no Brasil com (por exemplo) o decreto decreto lei 7.967, assinado por Getúlio Vargas. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1937-1946/Del7967.htm

A questão da dívida histórica fica em torno de todos os esforços que governos e religiões promoveram para manter o povo negro em condições desumanas. Essas engrenagens do passado, ainda movimentam a sociedade hoje. A reparação pode levar tantos séculos quanto a depredação

Fontes: 1, 2, 3 e 4

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A eugenia explica a maioria das pessoas não se importar com a prisão de Bárbara Quirino

Bárbara Quirino é uma dançarina de 20 anos, que foi condenada a 5 anos de prisão por roubo, a única prova é uma testemunha que a reconheceu “pelo cabelo”. A criminalização de características negras foi tão amplamente difundida no país que quase ninguém fica livre desse racismo.

Bárbara Quirino.

Segundo o TJ, Bárbara teria participado de roubos realizados na região de Santo Amaro, Zona Sul da capital paulista. Duas testemunhas reconheceram ela por foto, mas uma afirmou que estava de costas durante a ação, outra confirmou que o cabelo era parecido.

Porém a defesa da menina levantou fotos e vídeos comprovando que Bárbara estava no Guarujá, litoral paulista, participando de um evento na mesma data em que os assaltos aconteceram. O juiz ignorou, alegando que não haviam datas nas fotos e também ignorou 3 testemunhas dela.

Não é o primeiro caso em que a justiça assume uma postura totalmente parcial em relação a população negra. Felipe da Silva Freitas, mestre e doutorando em Direito pela Universidade de Brasília apresentou um estudo onde demonstra que pessoas negras têm menos acesso à justiça.

Em dados levantados pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), 69% das pessoas negras levadas à audiência tiveram a prisão preventiva decretada enquanto entre as pessoas brancas este número não ultrapassava os 55%.

Essa história começa com uma ideologia e pseudociência construída fora do país, mas muito defendida por ditos, intelectuais, brasileiros: a eugenia. Essa foi uma das maiores expressões do racismo científico, quando vários nomes se juntaram para explicar as diferenças raciais.

Eugenia ou “bem nascido” basicamente era o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente. Na prática buscava uma pureza racial, apenas encontrada nas pessoas brancas européias.

O Brasil foi centro dos principais estudos dessa higiene social na América Latina. Todos se esforçaram para apoiar a “raça brasileira” e livrar o país de várias mazelas e estigmas sociais ou intelectuais que viriam de pessoas inferiores e promoveriam a degeneração do país.

Parece um absurdo hoje, mas na época era uma ideia difundida em várias universidades e congressos pelo país. Um dos mais famosos foi o Congresso de Eugenia no Rio em 29 liderado pelo pai da eugenia brasileira Renato Ferraz Kehl.

Jornalistas de todo o país e principalmente médicos defenderam suas teses em Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Entre as conclusões da sociedade eugênica brasileira reside o fundamento que negros são imorais e tendenciosos ao crime, indolentes e etc.

Várias leis foram criadas no país, para impedir a imigração de negros e incentivar que italianos, alemães e todo tipo de europeu entrasse no país para que a mestiçagem promovesse uma limpeza na raça brasileira.

Em 1941 o governo assinou a lei da Vagabundagem, que punia com cadeia pessoas ociosas, como era de se esperar, negros lideraram as prisões até 1970. A margem da sociedade que não queria contratá-los, a polícia passou a caçá-los por qualquer coisa.

Em 1945 Getúlio Vargas assinou um decreto com cunho totalmente racial. “Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia”.

O imaginário brasileiro foi todo construído com a ideia de que negros e indígenas são naturalmente criminosos. As pessoas se acostumaram com essa ideia promovida por esforços de todos os lados durante quase um século.

É por isso, que ao ler uma notícia como de Bárbara ou mesmo Rafael Braga, seu inconsciente deve pensar algo como “ah é só mais um preto sendo preso”.

A discriminação não vem apenas das instituições, ela é um instrumento estrutural, pois opera também no inconsciente. É uma forma de opressão ‘naturalizada’ e que vai perpassar todos os outros elementos sociais”, explica Humberto Bersani.

Fontes: 1, 2 e 3