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Hugo Condoriano Tric

Hugo Condoriano Tric

Eles vieram das tradições orais de culturas diversas, do folclore mesmo, sem nome definido. E, como muitos sabem, não essas histórias não tinham nada de fadas. São contos recheados de vingança, assassinatos, torturas, sexo, mutilações, e por aí vai. Eles carregam a moral, ritos, anseios e orientações gerais da cultura que os gera. São histórias como as da mitologia grega, celta, hindu e até mesmo a brasileira. Essas histórias da mitologia européia eram contadas de pai para filho e traziam consigo preocupações da vida cotidiana (e nada nobre) como morte, fome, abandono e abusos sexuais onde os personagens principais, em geral, eram crianças ou jovens, servindo de alerta (drástico) para que os pequenos camponeses tomassem cuidado. Esses contos começaram a ser formalmente registrados em prosa na Idade Média, quando a sociedade começou criar uma distinção social entre crianças e adultos.

O autor pioneiro na área foi o francês Charles Perrault, que deu uma amaciada nas histórias para agradar as mães da corte francesa. No século seguinte, os famosos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen deram seguimento nessa linha literária inclusive absorvendo características de folclores de outras culturas, criando as "morais de história" e também amenizando os enredos. Afinal, já era considerado meio drástico dizer que João e Maria foram abandonados pelos pais por falta de condições para criá-los, passaram fome e tiveram os olhos devorados pelos animais da floresta. Que a Bela Adormecida foi, na verdade, estuprada pelo príncipe e até gerou seu filho enquanto estava inerte na cama. Que a história da doce Chapeuzinho Vermelho fala de canibalismo, onde a neta come a carne da própria avó e acaba sendo abusada e devorada pelo lobo, sem caçador para salvar. Que a Branca de Neve foi feita de empregada pelos anões e, no final, se vinga da madrasta obrigando-a vestir sapatos de ferro quente e dançar até a morte. Que a Pequena Sereia tem a cauda rasgada ao meio pela bruxa do mar e morre no final.

Os contos atuais, cheios de esperança e amor, foram fruto de uma preocupação com o impacto psicológico que as crianças podem sofrer a partir de influências. Preocupação esta que continua até hoje, discutindo cada vez mais o conteúdo da indústria infantil e do politicamente correto. Foi ela que transformou aquelas histórias macabras nos famosos contos de fada e acabou por nos poupar de muitas histórias dignas de pesadelos.

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Tecnologia cria novas possibilidades literárias

12 de outubro é o Dia Nacional da Leitura, instituído em 2009. Para comemorar a data e falar um pouco sobre o tema, o @interessante conversou com alguns escritores para saber sobre o que eles escrevem, como eles começaram a escrever e o que é ser escritor para eles.

O @geraldodefraga é escritor do gênero horror e fantasia e começou a escrever em 2000. O primeiro livro foi lançado em 2009, e o segundo será lançado em 2018, financiado por uma vaquinha online.

Para ele, “ser escritor é contar histórias interessantes aproveitando o potencial não explorado da mitologia brasileira, sobretudo do Nordeste do País, e tentar provar sempre que a literatura fantástica do Brasil tem futuro”.

Já para o @valeriogsbr, “um escritor é a pessoa capaz de transmitir em palavras realidades e sentimentos. Ele comenta que o trabalho de escrever exige muito esforço: “Nem tudo num escriba, vem por inspiração mas sim, transpiração!”.

A forma é algo fundamental na escrita: o @valkeanu escreve haikais, micropoesias e microcontos aqui no Twitter. Isso começou após um tweet do Hugh Laurie (o Dr House), dizendo que nunca tinha lido um haikai no Twitter.

De acordo com ele, ser escritor é “a possibilidade de contribuir de com o mundo de alguma forma. Transformar minhas tristezas em algo belo, que leve sorriso, reflexão ou qualquer sentimento positivo já me faz sentir que tenho feito um pouco de bem para o mundo”.

“Comecei a escrever fanfictions porque em todos os livros que li, dos seis anos, quando consegui ler sozinha "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas", até os 21, nunca havia encontrado histórias em que a protagonista fosse alguém como eu, lésbica”, conta a @brullf.

Segundo ela, a falta de representatividade literária (ainda mais na literatura fantástica) incomodava. A primeira fanfic dela foi inspirada na série Xena, a Princesa Guerreira. “Ser escritora é me encontrar, é encontrar outras pessoas sub-representadas ou apagadas na literatura”.

O @joaopadilhaaa diz que escrever é traduzir sentimentos e sensações que as pessoas nem sempre sabem expressar. É ler o óbvio mas ainda assim, sentir o que de fato foi dito em determinada sentença. Ele escreve sobre relações amorosas.

“Aos 23 anos, decidi que era hora de arriscar e publicar as coisas que sempre escrevi. Dei início ao blog “Quero Ser Escritor” e tive a felicidade de perceber que a escrita não somente era meu destino, como também meu caminho”.

Por fim, o @delsices, que escreve sobre ficção científica, diz que ser escritor “é conseguir criar pequenas pontes entre o nosso mundo e a ficção a partir da relação escritor-leitor. É uma forma de exteriorizar angústias e compartilhá-las”.

Na ficção científica, visualizo possibilidades de futuro, não a que vivemos, ou aquilo que a gente pensa que será daqui alguns anos. Mas como tínhamos idealizado o futuro ali pelo final da década de 90: carros voadores, a tecnologia quase obsoleta para nós sendo algo inovador”.

“Assim cria-se um link nostálgico e, ao mesmo tempo, melancólico para temas como o cyberpunk, que gosto bastante de abordar, sempre com uma reflexão sobre o quão podemos nos tornar artificiais ao longo em que a tecnologia nos consome”, explica ele.