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Qual a diferença entre a escravidão africana e o racismo europeu?

Numa época em que as redes sociais se tornam campos polarizados de discussões, a polêmica em torno do racismo e da escravidão vem a tona. Quase sempre confrontada com a falácia de que “os próprios negros se escravizavam”. Acompanha o texto para descobrir até onde vai a verdade.

Ilustração: O tocador de berimbau - J.B.Debret (1826)

A escravidão existe desde épocas pré-históricas. Ela sempre foi um reflexo da guerra entre povos diferentes. Exatamente como aconteceu, por exemplo, entre os Vikings, que criaram a palavra Thrall para a condição que poderia ser hereditária, captura e até mesmo voluntária.

Os Astecas chamavam de tlatlacotin. Dentro da sua sociedade, indivíduos com dívidas de jogos ou condenados por crimes podiam assumir a condição de serviçais particulares até pagarem suas dívidas. Ou até alcançarem a confiança do suserano (em caso de inimigos de guerra).

Para outras sociedades essa crueldade tinha um tipo de prazo. A bíblia judaica-cristã narra o ano do Jubileu, onde toda condição de escravo devia ser dissipada. Jubileu vem do verbo hebraico yovel "trazer de volta", pois os escravos voltavam a seu estado anterior de liberdade.

Dá para entender que a europa não inventou a escravidão. Ela inventou algo que tornou toda a história da escravidão mais nefasta que já era. Vamos falar sobre isso, mas é importante olhar para dentro da África e responder a grande questão, que gera banalidade nas discussões.

As pessoas tendem a diminuir a África, imaginando como um estereótipo de país, quando é um vasto continente dos mais ricos em culturas, tradições e etnias que viviam em conflitos assim como os ameríndios ou qualquer povo nativo de qualquer continente.

Escravos eram produtos dessas guerras. Muitas pessoas foram aprisionadas para a construção do império Akan, um dos maiores impérios africanos. Eles levantaram construções inimagináveis no meio da floresta e passaram décadas na expansão do mesmo.

Wilhelmina Donkell, especialista na história dos Akan, ressalta que o sistema de servidão Ashanti era diferente da escravidão europeia “podiam se casar, ter filhos, acumular propriedade e...às vezes eles se casavam com as linhagens de seus devo dizer, seus mestres”.

Seria ridículo argumentar que existia um tipo “legal” de escravidão. Ela é abominável de todas as formas, mas o mundo antigo era cruel em todos os lugares. Só que os europeus transformaram crueldade em desolação, adicionando um elemento nunca explorado: a ideia de raça.

Sandra Greene, historiadora especializada na história de Gana afirma “não tinham escravidão racial”. Em nenhum momento a humanidade decidiu que a escravidão deveria ser por conta da cor ou de uma etnia diferente. Portugueses e seus aliados criaram a escravidão racial.

O conceito de raça surgiu com a Inquisição por volta de 1449, quando um estatuto de pureza de sangue segregava judeus e mouros. Os teólogos passaram a procurar justificativas bíblicas para pessoas diferentes. Isso se intensificou quando chegaram à África.

Os europeus desembarcaram e promoveram alianças com alguns reis, assim como fizeram com os ameríndios. Vale lembrar da história de Montezuma que recebeu Hernán Cortés e depois foi traído e morto pelos espanhóis.

Da mesma forma mercadores europeus se aproveitaram dos conflitos entre os povos africanos para estimular guerras, criando prisioneiros que compravam como mercadorias. Apesar de já ser um costume entre alguns povos africanos, europeus elevaram a potências terríveis.

A historiadora Érica Turci afirma que ‘Os pesquisadores apresentam números diferentes, que vão de 8 milhões até 100 milhões de pessoas” escravizadas pela europa. A África é um continente muito maior que a América Latina e foi sangrado por séculos sem nenhum pudor.

Isso se deve ao fato da colonização européia criar um inédito mercado global de escravos. Vendendo os negros para outros países que estavam passando por colonizações. Os Árabes promoveram um mercado de escravidão, mas não chegaram a colonizaram um continente inteiro.

Enquanto a servidão africana, alguns escravos se tornaram confidentes de altos funcionários e eram eram considerados as pessoas ideais para estar perto dos homens no poder. A escravidão europeia dizia que negros não tinham alma e deveriam ser punidos em vida.

Não bastasse a perversão promovida pelos mercadores, endossados pela religião européia, à partir de 1800 a ciência promoveu teorias sobre as diferenças da anatomia de negros e brancos para garantir a despersonificação de homens e mulheres. Luther King fala sobre isso https://www.youtube.com/watch?v=1NukewONo1w

Por fim a escravidão racial se consolidou em leis que garantiam os privilégios de pessoas brancas em todo o mundo. Tanto na África com o Apartheid, quanto no Brasil com (por exemplo) o decreto decreto lei 7.967, assinado por Getúlio Vargas. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1937-1946/Del7967.htm

A questão da dívida histórica fica em torno de todos os esforços que governos e religiões promoveram para manter o povo negro em condições desumanas. Essas engrenagens do passado, ainda movimentam a sociedade hoje. A reparação pode levar tantos séculos quanto a depredação

Fontes: 1, 2, 3 e 4

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