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Padre Cícero e o milagre que o racismo não conseguiu apagar

Padim Ciço é uma das figuras mais mitológicas que existe no Brasil e seu legado que ainda é vivo no Nordeste nem sempre é celebrado em outras regiões do país. Este post vai contar um capítulo emblemático que revela o racismo da igreja romana no Ceará.

A história começa em Joazeiro (como se escrevia na época), não era nem cidade, era um povoado em meio aquele sertão do Cariri, castigado e habitado por no máximo 60 casas de taipa cobertas de palha. Teria Jesus aparecido em sonho para ordenar que o pároco cuidasse do povo.

Lá começou o seu trabalho que nunca foi apenas ligado a religião, ele ajudou o povoado a crescer, atraindo cada vez mais as famílias. Posteriormente foi responsável pela emancipação do local que hoje é um dos 3 maiores centros de peregrinação do Brasil.

Certa vez, em 1889 durante o ritual católico da comunhão, a hóstia sangrou na boca de uma beata bastante conhecida por Padre Cícero Romão Batista. O fenômeno que seria milagre para o povo, se tornou uma perseguição para o Padim por conta da igreja.

Fosse uma vez apenas, essa história não teria chegado até nós. Mas o possível milagre se repetiu outras vezes. E, claro, chamou a atenção de todos. Quando o Bispo do Ceará se deu conta, gente de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte já se deslocavam para ver a beata.

Maria de Araújo não era ordenada uma freira, mas passou a ter uma vida de religiosidade após um seminário do próprio Padre Cícero e se tornou uma mulher de confiança, determinada em sua fé, simples como o povo daquela região. Não sabia como lidar com a atenção do povo.

Beata Maria de Araújo

Vários médicos da cidade investigaram o caso, incluindo o doutor Marcos Rodrigues Madeira que publicou no jornal “O Cearense” um atestado de sobrenaturalidade para o ocorrido. Muitas pessoas procuravam o sangue para tentar curar suas feridas.

Um processo foi instaurado dentro da igreja e Maria de Araújo foi interrogada por vários homens descrentes de que Deus se manifestaria por “uma mulher, preta”. Todos exigiam de Padim Ciço uma declaração desmentindo o milagre.

Vale ressaltar que esse caso aconteceu em praticamente um ano após a Lei Áurea, que teria oficializado para o governo a abolição da escravatura. O racismo impregnado na sociedade brasileira ainda se alastrava em todas as esferas sociais.

Após alguns meses Padre Cícero teve que lidar com o Arcebispado do estado que exigia que ele desmentisse o ocorrido. Maria recebeu ordens para deixar Juazeiro e a companhia de Cícero. Passou a viver na Casa de Caridade do Crato - povoado vizinho.

Deixada de lado, a beata foi desaparecendo dos registros históricos de Juazeiro e o Padre foi proibido de celebrar missas, às sanções sobre ele o desligaram completamente da Igreja Católica, mas o povo já o seguia como um santo vivo na Terra.

Como mulher e indefesa, Maria de Araújo se viu desamparada e empurrada para a marginalidade histórica. A simples menção do seu nome nas celebrações do povoado era considerado um crime eclesiástico. Foi punida por não “desmentir” o fenômeno que aconteceu dezenas de vezes.

Capa Cordel Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo - Autor: Severino José da Silva (Severino do Horto) - Ano: 1991 - Xilogravura da capa da reedição (Editora IMEPH, 2012): José Lourenço

Foi enviada a um convento em Fortaleza, para ficar incomunicável, mas logo os fiéis descobriram e a procuraram. Novamente foi levada para longe, no sertão, onde adoeceu enclausurada. Alguns acreditam que foi envenenada.

Padre Cícero ainda teve muita história, se tornou prefeito da cidade e foi eleito Deputado Federal (mas não assumiu), em 2006 o Vaticano anunciou o perdão e a reconciliação do Santo popular que arrasta até hoje milhões de fiéis para o sertão.

Romaria do Padre Cícero em Juazeiro do Norte - CE.

Infelizmente a Beata Maria de Araújo não dispõe da mesma sorte, a igreja não se manifestou sobre a sua reconciliação. Após ser sepultada em 1914, teve seu túmulo violado por ordens de Bispo de Crato, tudo foi destruído e seus ossos desapareceram para evitar peregrinações.

O povo nunca esqueceu de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo e até hoje surgem histórias de pessoas encontrando seu possível local de enterro, talvez seja esse o maior milagre no meio de uma época marcada pelo racismo religioso.

Fontes: 1, 2, 3, 4, 5 e 6

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